Gordura como herança
Dr.Drauzio Varela
13/02/2005

Dessas 40 milhões de pessoas, 10%, isto é, quatro milhões, são obesas.
O número de gordos é bem maior do que o de desnutridos, e não pára de crescer, especialmente entre os mais pobres.
Para contar a história de alguém que passa o dia comendo, nós contamos o cotidiano da vendedora Cláudia, que trabalha na Central do Brasil, no Rio de Janeiro.

Logo de manhã, ela come um X-Tudo com dois ovos.
"Às vezes eu fico só triste e me pergunto por que estou comendo tudo isso", diz a vendedora.

Cláudia trabalha em uma bomboniére.
"É muito difícil resistir. Barra de chocolate, bombons, biscoitos, refrigerante", comenta ela.
Mas a obesidade como epidemia é um fenômeno dos últimos 20 ou 30 anos. Antigamente não era assim.
Nas imagens do centro de São Paulo, nos anos 20, havia poucas mulheres no centro da cidade. Nas ruas daquela época, raramente se via uma pessoa obesa. Quase todos eram magros.
"Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, houve uma mudança no comportamento alimentar dos brasileiros. Ela deixou de preparar o alimento dentro da sua casa, e passa a utilizar alimentos mais processados, fazendo com que haja desequilíbrio nos membros da família", explica a doutora Sônia Tucunduva, do Departamento de Nutrição e Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Mas ninguém engorda simplesmente porque come errado. Nós ganhamos peso também pela energia que deixamos de gastar. As facilidades do mundo moderno permitem que as pessoas ganhem a vida sentadas.

O taxista Rodrigo é um exemplo típico.
"Eu jogava bola, andava de bicicleta, agora com o táxi, fico preso", diz ele.
Ele trabalha sentado e depois que comprou o táxi, há um ano e meio, engordou 20 quilos.

O corpo humano, como um automóvel, precisa de combustível: a comida. Se o corpo fica parado, a energia da comida não é usada. O corpo humano consome energia mesmo quando repousa. O coração bate, o cérebro, os pulmões e o aparelho digestivo funcionam.

Quando fazemos esforço, os músculos se contraem. Para isso, precisam de energia. Essa energia chega empacotada nas moléculas de ATP. Ao entrar em contato com as fibras musculares, as moléculas de ATP sofrem uma transformação química que liberam energia, que será a energia gasta em atividade.

A única forma que o corpo tem para ganhar calorias é através da alimentação. Quando o número de calorias que ingerimos for menor do que a soma de energia gasta em repouso mais a energia gasta em atividade, ficamos mais leves, perdemos peso. Mas quando a soma das energias gasta em repouso e em atividade for menor do que o número de calorias ingeridas, ficamos mais pesados, ganhamos peso e gordura.

Quanto menor o esforço, maior o peso extra. O táxi do Rodrigo tem direção hidráulica e cidro elétrico. O esforço que ele deixa de fazer quando ele fecha e abre o vidro representa em um ano um quilo e meio a mais de peso.
Para almoçar na churrascaria do shopping, o Rodrigo usa escada rolante, menos esforço e mais um quilo e meio em um ano.

Por que será que gostamos tanto de doces e alimentos gordurosos. Para entender, é preciso lembrar que a espécie humana tem cinco milhões de anos e que herdamos nosso paladar dos nossos ancestrais.
Há 20 mil anos, nossos ancestrais moravam em cavernas, eram raros os dias de comida farta ao alcance da mão. Para matar a fome, o homem pré-histórico sonhava encontrar frutas doces e carne, alimentos super calóricos, capazes de sustentar uma família por muito tempo.

Depois de comer, todos ficavam sem fazer nada, imóveis, para economizar energia. Ninguém tinha idéia de quando viria a próxima refeição. Quem detestava carne, enjoava com açúcar e passava mal de estomago cheio, enfraquecia e era atacado por predadores.

Já os amantes de carnes gordas e doces, dotados de organismos capazes de acumular calorias sob a forma de gordura resistiram melhor e deixaram mais descendentes.

Diante da picanha gordurosa e do prato de salada, nossos genes babam pela carne e desprezam o resto.

Ou seja, já sabemos de onde herdamos esta tenência á obesidade, e se não interferirmos enquanto estamos aí
Com alguns quilinhos a mais, estaremos literalmente entranndo num buraco sem fundo, onde o futuro, com certeza
É negro.

CUIDADO !!!


voltar