A
fome e a saciedade |
Você não agüenta mais viver infeliz com a própria imagem, mas adora comer e beber. Sobe na primeira balança que encontra, fica ainda mais infeliz e espera que aquela dieta milagrosa traga bem depressa o corpo dos seus sonhos. Saiba que você não está sozinha. "Eu quero atingir a minha meta de 64 quilos. Acho que faz 16 anos que não peso 64 quilos", conta Edeli Zan, gerente de restaurante. Engorda, emagrece, engorda mais um pouco, emagrece menos. Na semana passada a gente viu como o corpo conspira para nos fazer voltar ao peso mais alto que já atingimos. "Em última análise: perde e ganha peso, perde e ganha peso muda a sua composição corporal, diminui a sua musculatura e aumenta a sua gordura", explica o endocrinologista Alfredo Halpern. "Eu tenho aqui manequins 44 e 46. E um 42, né? Aí comprei uma calça 48. Não compro mais nada. Ou eu volto ou eu vou ficar com essa calça, gente, é essa calça jeans. Ou vou ficar com ela até o fim da vida", diz Edeli. "Existe uma evidência clínica de que perder peso e reganhar, perder peso e reganhar faz mais mal pra saúde do que você estar já no peso acima", avisa Halpern. "Isso não pode ser um desestímulo? Ah, eu vou perder peso pra ganhar outra vez, então é melhor ficar com o peso que eu tô e está acabado?", pergunta Drauzio. "Não, eu acho o contrário. Eu posso te dizer que uma das grandes aquisições no combate à obesidade é o indivíduo hoje em dia ter certeza de que ele tem uma doença. É o médico transmitir para o indivíduo que ele tem que ter controle para o resto da vida". A idéia de que a obesidade é uma doença é um conceito recente. Durante muito tempo ela foi encarada simplesmente como um problema de quem come demais. "A Edeli é uma pessoa muito ansiosa com tudo. É difícil pra ela identificar qual é o problema", comenta o irmão de Edeli, Paulo Zan. "O maior problema na tua vida hoje pesa 12 quilos?", pergunta Drauzio. "Hoje
é", diz Edeli. "Ele se relaciona com você o tempo todo como um obeso. Um obeso que o tempo todo vai sentar com você em um restaurante e não vai falar da vida, das situações afetivas, e não vai conseguir aprofundar outras coisas tão valorosas na pessoa dele. Ele vai falar o tempo todo das calorias, do que comeu ontem, do que não comeu ontem. Quer dizer, ele apaga o resto da vida dele e se mostra o tempo todo como um obeso", completa o psiquiatra Táki Cordás. "Passo o dia inteiro preocupada com comida. O dia inteiro eu penso no meu corpo, na minha comida, no que eu vou comer", confessa Edeli. Antigamente, a gordura era considerada simples depósito para estocar energia. Hoje a ciência sabe que o tecido gorduroso é um órgão ativo que libera hormônios, ele é a maior glândula que temos. A quantidade de alimento que você ingere é controlada, em parte, pela quantidade de gordura existente em seu corpo. Quer dizer, quanto mais células gordurosas você tem, mais fome irá sentir. O controle do apetite e da saciedade - a sensação de que já comemos o suficiente - acontece no cérebro e independe da nossa vontade. O impulso da fome é tão forte quanto o da sede. Na
rotina diária, dois hormônios, a grelina
e o PYY, controlam e administram o apetite e a saciedade.
Eles atuam numa área do cérebro chamada
"núcleo arqueado", através de
dois circuitos de neurônios que exercem ações
opostas. Um estimula o apetite. O outro, a saciedade. O problema é que o centro da saciedade demora um pouco até ser ativado. Esse tempo varia de uma pessoa para outra. Mas para comer menos, é importante comer devagar, descansar os talheres, para dar tempo dos hormônios da saciedade chegarem até o cérebro. "Eu fico assim morrendo de inveja das pessoas que comem devagar. Se eu tenho alguém conversando comigo até que eu como devagar, entendeu? Mas se eu estou sozinha, como na maioria das vezes, acabo comendo rápido", diz Edeli O equilíbrio entre a grelina e o PYY indica quando devemos começar ou terminar uma refeição. Mas, dependendo do tipo de alimento, esses hormônios são liberados em quantidades diferentes. Por exemplo, carboidratos simples, como a batata, arroz brando, farinha de trigo e os doces, são absorvidos antes dos intestinos produzirem o hormônio PYY, que inibe a fome. Por isso, quando comemos dois pratos de macarronada com pão, domingo, em família, poucas horas depois assaltamos a geladeira em busca daquele pedaço de pudim. Já
a gordura de outros alimentos, como a carne vermelha,
por exemplo, demora mais para ser digerida e o PYY pode
fazer efeito, dando a sensação de que
estamos satisfeitos. Mas este é o mecanismo diário
de controle do apetite. O
outro hormônio, a leptina, ativa o centro da saciedade
- a área do cérebro que nos informa quando
estamos satisfeitos. A leptina é produzida pelas
células gordurosas para avisar ao cérebro
a quantas anda o nosso estoque de gordura. Se a leptina é produzida pelas células de gordura, quanto mais gordo, mais leptina. Como este hormônio inibe o apetite, os gordos, então, deveriam comer menos. Mas isso não acontece. É que neles existe uma espécie de "defeito molecular" que dificulta a ação da leptina. O que os cientistas tentam agora é descobrir como melhorar o funcionamento dos genes encarregados de reconhecer a leptina no cérebro. Seria
ótimo se a medicina pudesse oferecer uma solução
mágica para o tormento da Edeli e o de tantos
iguais a ela. Infelizmente, isso não existe. Porém,
você que "ainda" não é
gordo, cuidado, porque é mais fácil atirar
pedras nos outros do que Olhar o que vai ser seu futuro
e de sua família. |